quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Trânsito zen

Por Otávio Rodrigues


Naquele dia eu estava feliz por ter caído num congestionamento tipicamente paulistano, em véspera de feriado. Claro, nunca acontece assim, mas era parte do plano. A meu lado estava a monja Coen, brasileira que há alguns anos largou tudo, ganhou o mundo, abraçou o budismo, morou num templo no Japão, tornou-se mestra do zen (é ela quem, todo domingo, promove caminhadas meditativas nos parques e em outras áreas públicas da cidade). A idéia era conversarmos sobre trânsito, ou melhor, sobre o que de bom podemos fazer para contornar os problemas causados pelo trânsito, ou mesmo conviver com ele de maneira amiga.

- A primeira coisa é fazer xixi antes.

Eu esperava que ela falasse sobre a transcendência do ser, a sublime iluminação, jamais sobre xixi antes.

- Ter fome também desespera, nos deixa mais bravos, irritadiços. Então eu levo sempre no carro alguma coisinha pra comer, para distrair a fome.

Claro, ela tinha razão: as demandas físicas. Comentei a respeito da inevitabilidade das coisas e que, bem, se vamos ter de enfrentar a complicação da cidade, então vamos e pronto, sem esquentar a cabeça. É isso mesmo?

- No zen, nós falamos: abrir a mão e entregar. Quando fazemos retiros, sentamos sucessivas vezes, voltados para a parede, em meditação. A posição, que no começo é muito agradável, torna-se extremamente desagradável e muitas vezes incômoda. E isso não acaba enquanto você não se entregar.

As posturas meditativas, todo mundo sabe, compreendem um estado de relaxamento, mas obrigam o praticante a manter uma posição estável por algum tempo. O desconforto pode ocorrer quando assumimos a clássica posição de lótus (ou tentamos, ao menos) ou, como me disse a monja, enquanto trabalhamos ou dirigimos.

- Mas quando você se entrega a essa situação difícil, seja meditando ou preso no trânsito, existe uma transformação possível. Você entra num processo que se chama iluminação, no qual tudo o que está acontecendo, o que vivemos aqui, é o estar sempre nas mãos de Buda. E no trânsito eu estou nas mãos de Buda, eu continuo nas mãos de Buda. Às vezes temos de aprender paciência, respeito, e às vezes não exagerar na paciência e no respeito. Por exemplo, você acorda bonzinho e quer dar passagem pra todo mundo, aí o que está atrás de você fica furioso.

Monja Coen é uma das principais vozes do zen-budismo no Brasil e dirige um centro de ensinamentos e prática de meditação. Para ela, o segredo da bem-aventurança no trânsito, esse "estar nas mãos de Buda", é não esquecer que somos parte do todo.

- Tudo que na vida você começa a dizer "isto é horrível", "não quero que seja assim", pronto: você cria uma dualidade, uma separação. Ora, fica parecendo que a gente está tentando afastar essa realidade para entrar noutra, né? Eu digo: esteja nesta realidade, o paraíso é onde nós estamos, não é lá adiante.

Em outros tempos, quando ainda era jornalista e não monja, ela andava por aí de moto, uma Honda 350. Hoje tem um Gol e aproveita os engarrafamentos para se dedicar a alguns exercícios simples, que qualquer um pode fazer.

- Quando o trânsito pára, eu sento com as costas retas, respiro - a base é a respiração profunda. Então mexo os pés, um de cada vez, pra direita, pra esquerda, e a mesma coisa com os punhos. Olha que bom, eu descubro aí um tempo ótimo, em que eu posso mexer meu corpo, observar minha coluna...

Momento produtivo
Meu encontro seguinte aconteceu com Luciana Ferraz, diretora para o Brasil da Brahma Kumaris, uma universidade espiritual com sede na Índia e mais de 4 mil centros em todo o mundo. Ela me disse que tem conseguido passar mais ou menos à margem dos problemas do trânsito.

- Eu disponho de alguma liberdade no tipo de trabalho que faço, então equaciono minhas atividades para fugir dos congestionamentos. Marco compromissos em horários que me permitem ir contra o fluxo do trânsito. Quando isso não é viável, vou muito mais cedo e arranjo alguma coisa para fazer lá.

Luciana também adota hábitos que já são comuns à maioria. Além do rádio e do toca-fitas, o carro dela sempre tem jornais, revistas e outros suprimentos.

- Aprendi a carregar comigo coisas que tenho de ler, mas para as quais sempre falta tempo. Artigos, correspondências, e-mails. E levo sempre duas caixas de fitas com aulas e palestras. É uma maneira de transformar uma situação potencialmente problemática em um momento produtivo. Às vezes eu simplesmente fecho o vidro e canto. Não tenho a sensação que muitas pessoas têm, que é de ser refém, vítima.

Uma etiqueta espiritual
Dar passagem, um hábito que comprovadamente acalma, é algo que, segundo ela, pode ser mais exercitado no dia-a-dia.

- Em geral, os homens mostram-se mais gentis que as mulheres. A personalidade às vezes se reflete no trânsito, e uma mulher tentando se afirmar, tomar seu espaço, acaba perdendo aquela feminilidade, que é uma característica arquetípica da mulher. Raramente uma mulher dá passagem, e é bonito quando se cria essa gentileza no trânsito.

Luciana, assim como outros integrantes da Brahma Kumaris, é praticante da raja yoga, que em linhas gerais propõe o uso dos pensamentos de forma equilibrada e positiva, com o foco da atenção em experiências enriquecedoras.

- A partir do reconhecimento de que lá fora está o caos, e que diante desse caos eu não posso me desesperar, tenho de criar mecanismos internos, como o de um estado mental mais calmo, mais tranqüilo, com o qual eu já me preparo de antemão para não xingar, não reagir, não devolver nada para o outro. É uma etiqueta espiritual.

Oba, parou tudo!
O trânsito complicado às vezes estimula a gente a agir no limite da estabilidade emocional. São situações bem conhecidas, que se reproduzem em outros ambientes, como a de alguém que passa na sua frente, ou que muda de rota sem sinalizar, que ocupa duas vagas e assim por diante. E parece que o trânsito realça alguns instintos de territorialidade, de defesa. Ou então ele nos angustia, porque tolhe nossa liberdade de ir e vir. Será que existem práticas, pensamentos, atitudes que possam nos afastar desses comportamentos tão desagradáveis e estressantes?

Arrisquei essa filosofada diante do lama Michel Rimpoche, o jovem brasileiro reconhecido como reencarnação de vários mestres budistas. Ele então me fez o seguinte relato: - Um dos importantes mestres do Tibete era originário da Índia e de lá trouxe seu cozinheiro, um sujeito muito chato, nervoso. Depois de alguns anos, os discípulos do cozinheiro já tinham aprendido um pouco o jeito indiano de fazer a comida, então foram até o grande líder e sugeriram que ele mandasse o homem para umas férias na Índia, quem sabe um retiro... E o mestre falou: Quem? Meu mestre de paciência?

Nada como uma história breve e cheia de sabedoria. (isso eu pensei na hora, não disse). O lama continuou:

- Nós nunca podemos praticar a paciência sem ter um objeto de raiva. Por isso é importante poder olhar as situações difíceis como ocasiões para aprender também. Eis um ponto de vista que mostra como a gente pode transformar o trânsito. Hoje eu vou encontrar tais e tais desafios, vai ter gente me fechando, gente atravessando fora da faixa, várias situações desagradáveis que eu já conheço. Mas tudo isso é um teste para que eu possa manter minha calma. Então, eu agradeço por todas essas coisas negativas, que me dão chance de eu praticar minha paciência, desenvolver meu espaço interior. No budismo isso se chama aceitação, é aceitar as coisas.

Os novos poderes
Na última vez em que estive com Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena, lembro-me de tê-la ouvido falar sobre "criar o nosso mundo". Achei que era uma pista valiosa para esta conversa e liguei.

- Eu acredito que é criar um espaço numa oitava superior.

Lia é cultíssima, lida fácil com conhecimentos de várias esferas e sempre os relaciona com admirável bom senso. Pedi para ela explicar melhor esse conceito de "oitava superior".

- É como quando os aviões têm de subir para evitar tempestades dentro das nuvens, encontrar um espaço superior que permita trabalhar com as variáveis que estão sempre inseridas na situação. Se você está sob a ação das variáveis, você vai receber o impacto de uma puxando pra direita, outra pra esquerda, outra pra leste, outra pra oeste. Subindo um pouco o avião - ou a mente ou a consciência, como queira -, você tem a possibilidade de ver quais são as variáveis e, a partir dessa percepção, tomar alguma atitude ou estabelecer concretamente uma ação mais sadia. Mas, sem enxergar as variáveis, você é fagocitado.

Por nada neste mundo eu gostaria de ser fagocitado. Afirmei qualquer coisa então, para que ela continuasse o raciocínio e, quem sabe, me desse mais algumas pistas.

- Eu acredito que a primeira atitude é sair do papel de vítima no meio do trânsito. Porque na maioria das vezes - nem sempre - as pessoas têm uma possibilidade de escolha. Poderia não ter ido naquele horário, ou ter marcado a reunião em outro lugar, ou mesmo ter buscado outro espaço, outro território. Você está aí porque, de alguma maneira, está escolhendo essa situação, e não outra. Vão dizer, ah, mas eu tenho crianças, preciso desse emprego. Mas está claro que você pode mudar de cidade e de emprego. Perpetuando a condição de vítima, você não consegue sair da situação que criou.

De novo, o aspecto da aceitação, e de novo também a possibilidade de uma transformação (essas congruências são muito interessantes e significativas e, assim como as coincidências, disparam bastante quando estamos buscando algum tipo de evolução espiritual).

- A partir do momento que você sai e começa a perceber que escolhe essa situação difícil, de alguma maneira surge o que se chama de "novos poderes", uma nova vitalidade, uma nova condição que o torna mais forte.

Antes de desligar, Lia deu algumas sugestões especialmente boas para usarmos no cotidiano - embora ela não ande muito de carro e se considere uma caminhante compulsiva. Ela anda muito, para quase tudo, e dá preferência ao metrô nas jornadas mais longas. Táxi, só em ultimíssimo caso, já que também contribui para o entupigaitamento tal como o conhecemos.

- Sempre sugiro as boas companhias: um bom pensamento, seja ele uma frase de alguém que faça sentido para você, ou uma prece, um mantra... E tenha na bolsa, na carteira, a foto dos filhos, do marido, da esposa, pai, mãe, imagens de pessoas queridas. Ou seja, no próprio carro, no espaço onde se produz o grande estresse, podemos ter antídotos, como imagens, sons e pensamentos que recolocam, relembram o significado dessa passagem breve que é o momento no trânsito.

A essa altura, eu já estava pronto para somar todas as dicas, multiplicar e dividir e descobrir a chave sagrada, a pedra filosofal. Mas a Lia me socorreu com a conclusão, essa sim, definitiva.

- Todas essas providências e recursos decerto ajudam. Mas, sejamos honestos: são paliativos, pois se conseguirmos criar uma atitude interna, tomar consciência de que nós é que realmente escolhemos isso, todo o resto será dispensável.

Dei o caso como encerrado.

Dez dicas de ouro Um guia rápido para sobreviver à lengalenga das ruas
. Ir ao banheiro antes, levar comidinhas para beliscar (as "demandas físicas")

. Manter material de leitura e audição no carro, criando novas oportunidades de entendimento e aprendizado

. Dar passagem (sem exagero, porque atrás vem gente)

. Aceitar, entregar-se: o que não tem remédio, remediado está

. Parar. Respirar profundamente, movimentar pés, pernas, punhos e braços, descobrir onde dói

. Marcar compromissos em horários e locais estratégicos, de maneira a circular contra o fluxo do trânsito

. Tomar a confusão geral e a atitude besta de outros motoristas como chance de exercitar sua paciência

. Mudar de perspectiva, de maneira a poder ver a situação difícil de um ponto de vista mais elevado e impessoal

. Não assumir o papel de vítima ou de refém do trânsito

. Mude de rua, de avenida, ande a pé, de metrô, troque de emprego, de cidade: quem manda na sua vida é você - não reclame

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